Os passos ruidosos soam como batidas de coração velho.
Com personalidade e cansados.
Os olhos, vivos como um jovem de menos sessenta anos.
Um sorriso luminoso como um profeta.
Atravessou a rua e não chegou com vida ao outro lado.
Caiu no asfalto e ali expirou.
Não queria morrer em casa.
Queria que a ultima coisa que visse, fosse o céu.
E assim foi, um céu azul e sem nuvens.
Dir-se-ia que saiu de casa para morrer.
E conservou o sorriso. O seu ultimo. De quem preparou a viagem.
O trânsito parou e todos miravam o corpo magro impecavelmente vestido.
Trazia na mão um livro que se afastou do corpo.
Peguei-o, não direi de quem é o poeta.
Afastei-me, observando a capa.
Abri na página marcada e sentei-me na beirada do passeio.
Uma lágrima rolou pela face e abateu-se contra o asfalto.
Sei que em todas as noites cresce lentamente a árvore que essa lágrima regou.
Agora numa alameda cheia de plátanos e bancos de rua, vêem romarias de gente conhecer a praça dos poetas sós.
Sentam-se em silêncio e ouvem o vento sussurrar entre as folhas arbóreas uma doce melodia.
Então, em todos os rostos, um sorriso leve se improvisa.
O efeito do vento e a lembrança do bom velho.
O poeta que morreu no dia em que se alegrou com uma frase que ele escrevera.
Nesse mesmo instante, a vida ganhou sentido.
Eu neste momento, estou aqui à espera duma brisa, abraçado a um poema com todas as primaveras que quero viver.
12 Junho 09
(Publicado nesta data no site: Luso Poemas)