quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

café

o café das
tuas carícias
tira-me o sono

fecho-me em casa
nos dias com chuva
bebo do teu sorriso

o café do teu
ser afugenta
as minhas nuvens
de dor.
Nov. 09

até prosseguia o caminho

e até prosseguia o caminho se não me detivesse
nas vidas dos meninos que jogam com pés
descalços e uma bola gasta em campeonatos
desnudados de sol

até prosseguia o caminho se não parasse
a ver as mulheres de olheiras grand canyon
a estender roupa entre o vale e o moinho
velho

até prosseguia o caminho se não bloqueasse
os passos pelo teu rosto pelo teu sorriso
pelos teus gestos e a tua voz cansada
sabes nesta descida da colina até ao rio
fico e fica prometo-te as histórias do
caminhante e um coração de calor.
Nov.09

agora

começo o dia por apanhar a chuva do momento.
penso em espaços de tempo, separados com virgulas
de golfadas de vida. tenho os meus momentos
pollock emaranhados e sós. os meus momentos
rothko a duas cores fortes e doces. dou passos de
claustrofobia citadina e cimento, janelas com olhos
que espreitam o entrelaçar dos dias. leio poemas
de palavra longínqua de josé antónio gonçalves,
uma ilha de memória. leio ferlinghetti como um
mar. vejo-me a enterrar o gato que morreu nos
terrenos do fundo do bairro, numa noite fria de
degelo. sonho que estou a fumar numa
encruzilhada e não fumo. sinto o fôlego de pardal
cantar-me dores. ligo o rádio da pick up e não sei
se é andrew bird ou lee perry, apenas uma ave
que pensa num ciclo de filmes a preto e branco.
por entre as casas dos poetas, as casas, converso
com os poetas velhos, as casas, falam-me de
mallarmé e dos dias de rompante. agora,
atravesso a avenida e chove evidências de
que deus está presente entre nuvens e conversas
de mulheres de parapeitos ferozes e de sorriso de
cor e sabor. agora entro na vida, novamente, não
vai ela zangar-se de novo. agora sorvo momentos
que me dizem que agora estou aqui. agora estou
aqui.
Nov. 09

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

"Eu Lia Ferlingheti" - Um poema inédito de José António Gonçalves

Nas minhas pesquisas acerca da poesia de Lawrence Ferlinghetti (autor de "A Coney Island Of The Mind" - 1958, que até agora venderam-se mais de 1 milhão de cópias, poeta e editor da City Lights Bookstore de San Francisco, nascido em 1919, associado à "geração Beat" por ser o editor de Kerouac e outros...) que muitos consideram datado e colado a uma época, descobri este espantoso poeta da Madeira e do mundo, com este poema livre e fresco.

EU LIA FERLINGHETI
Eu lia Ferlinghetti e passava o dia a enquadrar
os versos longos em movimentos rítmicos
de jazz Sonny Liston Charlie Parker Óscar Petterson
saíam pelas colunas de som e encontrávamo-nos a meio
do caminho entre um solo de sax e um rufo de bateria

Os poemas de Ferlinghetti não eram uma bíblia
nem os amigos sabiam se ele seria ou não um profeta
ao serviço de Kerouac ou de Allen Ginsberg às vezes
perguntavam para que servia uma poesia com as cores
das cidades barulhentas a untuosidade dos cabelos compridos
e os patéticos apelos a tudo à paz ao amor livre contra
o racismo o serviço militar os programas de televisão
menos as alegrias crepusculares das drogas e dos alcoóis
a empurrarem o rock n'roll para a beira da auto-estrada

Depois foi Voznessinski que veio mexer nos alicerces
do mundo e tudo andava de novo à roda num carrossel
de flores e de nuvens gazeadas de fuzilamentos onde
estaria a liberdade ainda perguntavam alguns apontando
as fronteiras de arame farpado a agonia do muro de Berlim
e os cárceres sujos das mentes libertadas nas ruas e presas
a palavras gastas com óleos de fritar salsichas e costeletas de porco

Ninguém olhava para o lado para trás para o firmamento
seguindo a linha recta traçada na invisível sombra do asfalto.
Eu lia Ferlinghetti. Na América matavam Kennedy e Luther King
o napalm pintava o Vietnam de cor de laranja os Beatles apontavam
para sempre os campos de morangos e satisfeitos os Rolling Stones
reinventavam-se para imitar a Banda dos Corações Solitários
do Sargento Pimenta e em Portugal Salazar lanchava com a senhora
Maria ouvindo os telegramas sobre as mortes em Angola.
Eu lia Ferlinghetti, hipnotizado, como se o mundo fosse acabar
nessahora.

José António Gonçalves(inédito.30.03.04) JAG

http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

Bem procuro por mais poesia desta. Obrigado, JAG por este belo poema. Para o transcrever obtive licença para o efeito, por isso só o utilizarei aqui no Blogue e tirado do link que está em baixo, após o poema. Respeitemos os direitos de autor.

Mas quem foi José António Gonçalves? Para quem não saiba e tenha andado distraído:

"José António Gonçalves, natural de S. Martinho, Funchal, nasceu em Junho de 54 e falece em Março de 2005, pertenceu aos órgãos directivos da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e foi presidente da Associação de Escritores da Madeira (AEM), da qual foi co-fundador (1989).
Publicou os seus primeiros textos na imprensa ainda muito jovem e tornou-se Jornalista profissional em 1971 no Jornal da Madeira. Revelou-se em «O Poeta Faz-se aos Dez Anos», de Maria Alberta Menéres (que lhe dedicou um capítulo do seu livro), em 1973 (Assírio & Alvim). Nesse ano integrou o Caderno de Poesia & Crítica «Movimento (número único, org. A. J. Vieira de Freitas), com António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Pedro Támen, José Bento, A. J. Vieira de Freitas, José Agostinho Baptista e Gualdino Avelino Rodrigues. Dirigiu nos anos setenta a página literária «Poesia 2000» no «Jornal da Madeira e, em 1993, o «Suplemento Cultura», no «Notícias da Madeira». Coordenou também "O Marcador" no semanário "Areópago".
Fundou e dirigiu várias colecções literárias. Recebeu por duas vezes o Galardão de Mérito Cultural da Região Autónoma da Madeira (1989 e 1994). Trouxe à Madeira a Casa da Comédia, de Filipe Lá Féria, com «A Bela Portuguesa», de Agustina Bessa-Luís), recitais, conferências, Feiras do Livro, com autores como José Saramago, José Manuel Mendes e Fernando Campos, entre outros
Colaborador literário da imprensa, rádio, televisão, escrevendo ainda para o cinema (documentários) e teatro.
A sua obra, num total de quase duas dezenas de livros (sem contar com as antologias). Obras (principais): "Réstea de Qualquer Coisa" (Crónicas, 1973); "É Madrugada e Sinto" (Poesia, 1974): "Pedra-Revolta" (Funchal, 1975); "20 Textos para Falar de Mim" (Prémio Literatura Leacock/Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 1988); "Antologia Verde" (Funchal, 1991); "Os Pássaros Breves" (Posfácio de João Rui de Sousa, Átrio, Lisboa, 1995); "Tem o Poder da Água" (Prefácio de Ernesto Rodrigues, Editorial Éter, Lisboa, 1996); "Noites de Insónia" (Funchal, 1998); "Giacomo Leopardi e o Suave Desprendimento do Infinito" (Prefácio de António Fournier, Funchal, 1999); "À Espera dos Deuses" (Funchal, 1999); "Lembro-me desses Natais (Textos Introdutórios de João Rui de Sousa e Vergílio Alberto Vieira, ilustrações de Maurício Fernandes, Funchal, 2000); "Aventura na Casa dos Livros" (Funchal, 2000); "Esquivas são as Aves" (Funchal, 2001); "Memórias da Casa de Pedra" (nota de Albano Martins, Funchal, 2002); "O Sol na Gaveta" (registo biográfico de João Carlos Abreu, Funchal, 2002); "As Sombras no Arvoredo" (Funchal, 2004), “Arte do Voo” (Prefácio, selecção e notas de António Fournier, Editora Ausência, Colecção Ausência Quebrada, 12; 2005). Para além destes títulos, encontram-se inéditos e vários conjuntos poéticos.
Foi agraciado postumamente com o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República Dr. Sampaio, a 10 de Junho de 2005."

http://members.netmadeira.com/jagoncalves/curriculo.htm

Meus amigos, vale a pena descobri-lo. A Poesia passou por aqui.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Lançamento de: "Traços do Destino" de Vera Sousa Silva

No próximo sábado, pelas 16 horas estarei no Auditório do Campo Grande, em Lisboa a apresentar o livro de Vera Sousa Silva. Apareçam.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Verde Rude

Um

Pai, as árvores estão a crescer muito.
Filha, dorme, é o vento nas folhas.
O vento abana uma árvore de alto a baixo.
Sobretudo um vento forte como este.
Dorme, amanhã irás para a escola
Com olheiras de marinheiro em terra.
Como são essas olheiras?
O marinheiro em terra, até o navio
Sair do porto, quer aproveitar a noite
E no outro dia, sem ter dormido,
Tem olhos de mocho e quase não
Pode encarar a luz.
Vou ficar assim, pai?
Não se dormires. Por isso dorme.
Deixa lá o vento e as árvores que dançam.
Mas elas estão a crescer muito,
Como se elas se revoltassem
Por séculos de a humanidade as maltratar.
Filha, por favor, dorme.
Queres que eu te conte uma história?
Sim. Sem ser de marinheiros.
Pode ser do marinheiro Ismael que encontra
Trabalho numa baleeira que andava atrás
Duma grande baleia branca.
Pode ser.
Começa assim… é o jovem marinheiro
Que conta a história:
Eu sou Ismael…
Pai?
Sim.
A janela.
Deixa estar.

17 Fev. 09

Dois

De facto, a cidade morreu, filha,
Neste tempo em que
Cresceste e te protegi de veres
A queda dos homens…
Anda cá, olha pela varanda,
As vantagens desta colina,
Olha como a cidade é um monte
De ruínas,
Desta vez a culpa não é deles,
Pobres irracionais
Condenados a fazerem sempre o mesmo
Mesmo que isso os leve à desgraça,
Desta vez o caos
Foi de facto as árvores que crescem
Sem se saber porquê,
Tinhas razão, filha, estavam a crescer
Imenso,
Apenas te quis poupar ao inferno,
Como qualquer pai,
Mas é difícil esconder a realidade
Por mais tempo,
Uma nova espécie de árvore de ramo verde,
Elástico, que não queima,
Parece que existe para nos
Sufocar,
Está por todo o lado…
Irrompendo pelo asfalto, pelo betão,
Rompendo estruturas e canos…
A velha cidade é agora
Uma imagem pictórica
De ramos entrelaçados…
Bom para os pássaros que não se calam…
Novas espécies voam pelas avenidas…
Pai… parece que tens
Novas histórias para contar…
Assim é…

27 Fev. 09

Três

O corpo da mulher adormecida na urze
Na margem do rio brilhante…
Acordou, com o sol sorrindo
Entre as grandes árvores…
Molhou um pouco do rosto
E ajeitou os longos cabelos castanhos…
As suas mãos a entrar na água,
Provocou ondas na superfície das águas
Límpidas…
Levantou-se e caminhou
Pelo carreiro de terra
Que leva à ponte de pedra
E atravessou-a em direcção
Á floresta densa…
Atravessou a família de grande vegetais de tronco forte,
Testemunhas cada vez menos silenciosas
De um tempo volante…
A mulher de longos cabelos desceu
A encosta
E entrou na cidade das casas brancas caiadas…
Cidade vazia,
Ela e uma brisa de vento…
Atravessou a grande avenida de sequóias
Com pequenas casas de um lado e outro,
Na ultima do lado direito, entrou…
A encosta desmaiava-se
E em dunas e arbustos até ao mar…
Este, o mar estava calmo
Nesse dia e sem tempestade…
Nova brisa, levanta alguma areia
E o tempo desenrola-se em ondas…

16 Abr. 09

Quatro

Mia Couto escreveu:
“eu vi
a árvore morta
e soube que mentia.”
Por isso
Sonhei
O verde rude.
Quero árvores.
Preciso de árvores.
Deito-me neste rectângulo
De relva.
Imagino
Como será
A minha casa
De boa madeira.
Á volta, esguios ciprestes,
Esguios e densos.
Algumas tuias,
Árvores grandes e cónicas.
Do lado donde sopra o vento,
O vento rijo e devastador,
Os choupos-negros.
Uma oliveira,
Uma feia oliveira,
De tão bela que seja,
Para a minha sombra,
No meu jardim.
Deste lado do planalto,
Figueiras, muitas figueiras.
O mar e as dunas.
Os pinheiros-bravos, altos,
Como guerreiros e guardiões.
Mais para dentro da terra,
Onde morrerei,
Os pinheiros-mansos
E alimentar-me-ei
Dos seus pinhões doces.
O perfume da tília no verão.
As flores da acácia-mimosa,
Da ameixoeira, do castanheiro-da-india
E do imponente jacarandá.
A olaia...
Ah, a bela magnólia.
Dormirei em paz divina,
Os braços múltiplos
Do salgueiro-chorão,
A minha protecção...
No fundo, sou um
Velho vagabundo.
Irregular como a viagem
De um qualquer vadio,
Como o crescimento do zambujeiro.
Sólido contra ventos e tempestades,
Nos caminhos do deserto
Percorrido,
Entre azinheiras e sobreiros.
As alamedas campestres de amendoeiras.
Outros jardins
Saltados por entre
Os choupos-brancos.
As avenidas motorizadas
Entre os plátanos silenciosos
E murmurantes de vento.
Há mais árvores, sabes...
Há o loureiro que nos aromatiza a vida
E a macieira que nos alimenta
Os passos.
No vale protegido,
Onde a ventania não reina,
Fico à sombra da grevilia
E da catalpa.
Mas basta-me um carvalho-roble
E aí viverei.
Numa casa de madeira,
Construída com as minhas mãos,
Como Thoreau,
Apenas basta.
Que pensas deste sonho, tu?
Vai lá descansar,
Amanhã cantar-te-ei
Outros sonhos.

06 Jun. 09

Cinco

“A velha cidade cheia de vida.
Mas, que aconteceu à humanidade?
O aquecimento do globo
Fez nascer uma planta verde que não morre.
Cresce rápido e quando se corta
Sai uma seiva verde vivo que logo seca,
Primeiro esponjosa depois borracha
Depois dura como madeira e depois como
Aço.
Uma planta-árvore como aço,
Viva e tentacular.”

Os teus sonhos são
De verde rude, sabes amor?
Os teus sonhos são
De corpos de gente
Em relações solares
Com ervas
E futuros pensados
Em inquietações
E alucinações.
Mas sempre de verde rude, amor.
No fim o verde ganha sempre,
Também parece que foi assim
Que começou…

Fev./Nov. 09

(Já colocado por partes. Tem partes novas. Para um novo entendimento do todo. Ver o que dá. Work In Progress, gosto desta expressão...)

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Blues de Devaneio


Ou Blues
Ou Depressão
Ou ataque de Tristeza
Ou Amargura
Desespero e
Falta de Esperança
Ou Melancolia
Afro
América
Grito contra a Escravidão
Ou Chicago
Ou Electricidade
Ou Muddy
Ou mesmo Chelas vista
De cima
Junto aos pés do anjo
Ou o Amor
Ou os seios rasgados
A tanto sol
Ou os mesmos Blues
Sangrados
Suados e enegrecidos
Á mão de semearNov. 09