Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas - Manuel Maria Barbosa du Bocage


Um soneto que gosto muito de Bocage.

O Inverno, tão longíquo...


"Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas,

Geme, de horrendas nuvens carregado;

Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado

Investe ao pólo em serras escumosas;


Ó benignas manhãs!, tardes saudosas,

Em que folga o pastor, medrando o gado,

Em que brincam no ervoso e fértil prado

Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!


Voltai, retrocedei, formosos dias:

Ou antes vem, vem tu, doce beleza

Que noutros campos mil prazeres crias;


E ao ver-te sentirá minha alma acesa

Os perfumes, o encanto, as alegrias,

Da estação que remoça a natureza."

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Os olhos que os passos derradeiros levaram

Os passos ruidosos soam como batidas de coração velho.
Com personalidade e cansados.
Os olhos, vivos como um jovem de menos sessenta anos.
Um sorriso luminoso como um profeta.
Atravessou a rua e não chegou com vida ao outro lado.
Caiu no asfalto e ali expirou.
Não queria morrer em casa.
Queria que a ultima coisa que visse, fosse o céu.
E assim foi, um céu azul e sem nuvens.
Dir-se-ia que saiu de casa para morrer.
E conservou o sorriso. O seu ultimo. De quem preparou a viagem.
O trânsito parou e todos miravam o corpo magro impecavelmente vestido.
Trazia na mão um livro que se afastou do corpo.
Peguei-o, não direi de quem é o poeta.
Afastei-me, observando a capa.
Abri na página marcada e sentei-me na beirada do passeio.
Uma lágrima rolou pela face e abateu-se contra o asfalto.
Sei que em todas as noites cresce lentamente a árvore que essa lágrima regou.
Agora numa alameda cheia de plátanos e bancos de rua, vêem romarias de gente conhecer a praça dos poetas sós.
Sentam-se em silêncio e ouvem o vento sussurrar entre as folhas arbóreas uma doce melodia.
Então, em todos os rostos, um sorriso leve se improvisa.
O efeito do vento e a lembrança do bom velho.
O poeta que morreu no dia em que se alegrou com uma frase que ele escrevera.
Nesse mesmo instante, a vida ganhou sentido.
Eu neste momento, estou aqui à espera duma brisa, abraçado a um poema com todas as primaveras que quero viver.

12 Junho 09

(Publicado nesta data no site: Luso Poemas)

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Podia chamar-me: Pó

Podia chamar-me: Pó
De poeira feita
Com traços
De ruga
Decalcados.

Parte de mim
Voava
Outra
Parte de mim
Dissolvia-se
Em partes
Desiguais.

Pousava
No teu corpo
Belo corpo
De leite e marfim
E em
Metamorfose
Sorvia-te…

03 Maio 09

Uma metáfora pode ser o raio que o parta…

Uma metáfora pode ter perfume de vida.
Uma mulher bela faz café numa manhã de nevoeiro com a janela da sua cozinha escancarada.
Uma metáfora tem brilho de palavra vadia.
No andar de baixo, o homem de noventa e um anos sorve o ar com dificuldade e passeia-se de roupão coçado.
Uma metáfora tem sopro de história e suor.
Um bebe chora mas não sabemos em que andar.
Uma metáfora estica os dias quentes até os derreter em sons de pássaro citadino.
Uma televisão canta sozinha, luzes que tremem e dois copos de vinho jazem numa carpete persa, um deles tombado e o outro não me lembro bem.
Uma metáfora pode ser a vida a fingir ou uma explosão de divindade.

01 Junho 09

Assim, simples…

Amor é simples.
Dá para uma vida.
Sobra uma teia

Que se enlaça
No teu coração suave
Liquefazendo-o

De felicidade
Doce. Sim, és doce.
Eu, um absinto.

29 Maio 09

Tens medo de que descubram…

Tens medo de que descubram.
Que não és poeta.
Que sofres de NFAMIDQEP (não-faço-a-mínima-idéia-do-que-é-poesia).
Ou de SLFUP (sei-lá-fazer-um-poema).
Não faz mal.
Antes de sabermos a andar, não andávamos.
Antes de sabermos falar, balbuciávamos sons quase sem sentido.
Faz-te melhor.
Vive e aprende.
Faz de ti o poema.
Os outros que te escrevam.

25 Maio 09

Sol no subúrbio

Eco avisa Eva.
Ivo sai com Isa.
Isa tem 40.
Ivo muito menos.
São vizinhos de Eco.
Eco vive na casa há 25.
Sempre a mesma.
Casou com Eva há 12.
Eco avisa Eva.
Estão atrasados.
O jardim de Ivo tem sebes.
Eco não tem jardim.
Relva e árvores apenas.
Bancos, muitos bancos.
Uma verdadeira obsessão.
Por bancos de jardim.
Bebe chá.
Sentado neles.
Por vezes, dorme.
O sol entra.
Entra no bairro.
Eco sai com Eva.
Ivo retorna com Isa.
Isa está grávida.
De gémeos.
Eco e Eva não têm filhos.
Têm um cão.
Sonolento e pesado.
E um Porsche de 78.
Sempre parado.
Tiram férias no Bali.
Ivo nasceu em Espanha.
Isa é de cá.
Riem juntos.
Faz sol hoje.
Isa passeia no parque.
Senta-se à sombra.
Do velho carvalho.
Faz sol.
Eco regressa com Eva.
Eva chora.
Detesta funerais.
Como toda a gente.
Mesmo que não conheça.
Quem morreu.
Ivo começou o dia mal.
Estupidamente.
Escorregou num frasco.
Na cozinha.
Frasco de maionese.
Que se partiu.
Tombado no chão.
O frasco e ele.
Dói-lhe a anca, agora.
O sol entra pela janela.
Atravessa a sala.
Isa dorme no sofá.
Ivo ligou a televisão.
Ao lado, Eco faz eco.
Grita por Eva.
Eva no jardim não ouve.
Eco desiste.
Procura peúgas lavadas.
Faz sol no subúrbio.

25 Maio 09