Um
Pai, as árvores estão a crescer muito.
Filha, dorme, é o vento nas folhas.
O vento abana uma árvore de alto a baixo.
Sobretudo um vento forte como este.
Dorme, amanhã irás para a escola
Com olheiras de marinheiro em terra.
Como são essas olheiras?
O marinheiro em terra, até o navio
Sair do porto, quer aproveitar a noite
E no outro dia, sem ter dormido,
Tem olhos de mocho e quase não
Pode encarar a luz.
Vou ficar assim, pai?
Não se dormires. Por isso dorme.
Deixa lá o vento e as árvores que dançam.
Mas elas estão a crescer muito,
Como se elas se revoltassem
Por séculos de a humanidade as maltratar.
Filha, por favor, dorme.
Queres que eu te conte uma história?
Sim. Sem ser de marinheiros.
Pode ser do marinheiro Ismael que encontra
Trabalho numa baleeira que andava atrás
Duma grande baleia branca.
Pode ser.
Começa assim… é o jovem marinheiro
Que conta a história:
Eu sou Ismael…
Pai?
Sim.
A janela.
Deixa estar.
17 Fev. 09
Dois
De facto, a cidade morreu, filha,
Neste tempo em que
Cresceste e te protegi de veres
A queda dos homens…
Anda cá, olha pela varanda,
As vantagens desta colina,
Olha como a cidade é um monte
De ruínas,
Desta vez a culpa não é deles,
Pobres irracionais
Condenados a fazerem sempre o mesmo
Mesmo que isso os leve à desgraça,
Desta vez o caos
Foi de facto as árvores que crescem
Sem se saber porquê,
Tinhas razão, filha, estavam a crescer
Imenso,
Apenas te quis poupar ao inferno,
Como qualquer pai,
Mas é difícil esconder a realidade
Por mais tempo,
Uma nova espécie de árvore de ramo verde,
Elástico, que não queima,
Parece que existe para nos
Sufocar,
Está por todo o lado…
Irrompendo pelo asfalto, pelo betão,
Rompendo estruturas e canos…
A velha cidade é agora
Uma imagem pictórica
De ramos entrelaçados…
Bom para os pássaros que não se calam…
Novas espécies voam pelas avenidas…
Pai… parece que tens
Novas histórias para contar…
Assim é…
27 Fev. 09
Três
O corpo da mulher adormecida na urze
Na margem do rio brilhante…
Acordou, com o sol sorrindo
Entre as grandes árvores…
Molhou um pouco do rosto
E ajeitou os longos cabelos castanhos…
As suas mãos a entrar na água,
Provocou ondas na superfície das águas
Límpidas…
Levantou-se e caminhou
Pelo carreiro de terra
Que leva à ponte de pedra
E atravessou-a em direcção
Á floresta densa…
Atravessou a família de grande vegetais de tronco forte,
Testemunhas cada vez menos silenciosas
De um tempo volante…
A mulher de longos cabelos desceu
A encosta
E entrou na cidade das casas brancas caiadas…
Cidade vazia,
Ela e uma brisa de vento…
Atravessou a grande avenida de sequóias
Com pequenas casas de um lado e outro,
Na ultima do lado direito, entrou…
A encosta desmaiava-se
E em dunas e arbustos até ao mar…
Este, o mar estava calmo
Nesse dia e sem tempestade…
Nova brisa, levanta alguma areia
E o tempo desenrola-se em ondas…
16 Abr. 09
Quatro
Mia Couto escreveu:
“eu vi
a árvore morta
e soube que mentia.”
Por isso
Sonhei
O verde rude.
Quero árvores.
Preciso de árvores.
Deito-me neste rectângulo
De relva.
Imagino
Como será
A minha casa
De boa madeira.
Á volta, esguios ciprestes,
Esguios e densos.
Algumas tuias,
Árvores grandes e cónicas.
Do lado donde sopra o vento,
O vento rijo e devastador,
Os choupos-negros.
Uma oliveira,
Uma feia oliveira,
De tão bela que seja,
Para a minha sombra,
No meu jardim.
Deste lado do planalto,
Figueiras, muitas figueiras.
O mar e as dunas.
Os pinheiros-bravos, altos,
Como guerreiros e guardiões.
Mais para dentro da terra,
Onde morrerei,
Os pinheiros-mansos
E alimentar-me-ei
Dos seus pinhões doces.
O perfume da tília no verão.
As flores da acácia-mimosa,
Da ameixoeira, do castanheiro-da-india
E do imponente jacarandá.
A olaia...
Ah, a bela magnólia.
Dormirei em paz divina,
Os braços múltiplos
Do salgueiro-chorão,
A minha protecção...
No fundo, sou um
Velho vagabundo.
Irregular como a viagem
De um qualquer vadio,
Como o crescimento do zambujeiro.
Sólido contra ventos e tempestades,
Nos caminhos do deserto
Percorrido,
Entre azinheiras e sobreiros.
As alamedas campestres de amendoeiras.
Outros jardins
Saltados por entre
Os choupos-brancos.
As avenidas motorizadas
Entre os plátanos silenciosos
E murmurantes de vento.
Há mais árvores, sabes...
Há o loureiro que nos aromatiza a vida
E a macieira que nos alimenta
Os passos.
No vale protegido,
Onde a ventania não reina,
Fico à sombra da grevilia
E da catalpa.
Mas basta-me um carvalho-roble
E aí viverei.
Numa casa de madeira,
Construída com as minhas mãos,
Como Thoreau,
Apenas basta.
Que pensas deste sonho, tu?
Vai lá descansar,
Amanhã cantar-te-ei
Outros sonhos.
06 Jun. 09
Cinco
“A velha cidade cheia de vida.
Mas, que aconteceu à humanidade?
O aquecimento do globo
Fez nascer uma planta verde que não morre.
Cresce rápido e quando se corta
Sai uma seiva verde vivo que logo seca,
Primeiro esponjosa depois borracha
Depois dura como madeira e depois como
Aço.
Uma planta-árvore como aço,
Viva e tentacular.”
Os teus sonhos são
De verde rude, sabes amor?
Os teus sonhos são
De corpos de gente
Em relações solares
Com ervas
E futuros pensados
Em inquietações
E alucinações.
Mas sempre de verde rude, amor.
No fim o verde ganha sempre,
Também parece que foi assim
Que começou…
Fev./Nov. 09
(Já colocado por partes. Tem partes novas. Para um novo entendimento do todo. Ver o que dá. Work In Progress, gosto desta expressão...)