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Bem hajam.

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

velha senhora observava os eléctricos



velha senhora rugas de tempo
mãos de prata sorriso de mar
observava os eléctricos
observava-os
com o silêncio vespertino dos pardais
a água-furtada
a gotejar de chuva
a orquestra da cidade
metros abaixo
o chiar dos travões
os abanões das curvas
a avenida vinte e quatro de julho
a manhã lenta
o frio do rio velho rio
observava
e pensava
um dia desaparecerão
que farão aos carris
taparão com cimento
ou pedra da calçada
e farão uma feira muda
de memórias perdidas
observou mais um pouco
mais um pouco…

dez. 09

Poema de Amadeu Baptista

E este poema?
MARK ROTHKO: nUMBER 207 - RED OVER DARK BLUE ON DARK GRAY (1961)

"... Onde as cores se demoram
para que a exaltação do silêncio
permaneça e se guarde..."

Leiam-no na íntegra no Blogue: Porosidade Etérea, dia 24 Dez. 09.

http://porosidade-eterea.blogspot.com/2009/12/mark-rothko-number-207-red-over-dark.html

Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Chego tarde…

Cheguei tarde
Tão tarde
Aos poemas
De Ramos Rosa…
Eles já existiam
Eu não sabia…
Aos meus
Tão maus
Já estavam
Na minha cabeça…
Só tarde
Sempre tarde
Tão tarde
Os tirei para fora…

Dez. 09

Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Cristina Pinheiro Moita escreveu Corpo de Corcel


Cristina ou Mim (como é conhecida no Luso Poemas, onde se lançou em poemas), escreveu o seu primeiro livro de fogo, delicado e a pedir licença.
A poetisa acha-se pouco.
E escreveu bastante.
Escreveu simples.
A poetisa sorriu às palavras e inchou os pulmões de coragem.

“Estendo as mãos
em nevoeiro
cerrado.
Grito ao sofrimento
Sem razão.
-
Perco o medo,
De andar
Na escuridão.”

A escuridão
Pode ser o caminho
De quem tem luz própria.
A poetisa ensaiou beleza
E produziu um encanto suave
E respeitador.

Admiro as poetisas
Que tratam as palavras
Com mãos suaves.

Dez. 09
(Livro de poemas, lançado pela Temas Originais. A conhecer.)

António MR Martins escreveu Quase do Feminino


A mulher é feminino e feminina,
Pode ser masculina e não masculino,
Apenas um pequeno grupo…

A mulher é o feminino do outro lado
Da vedação invisível e contraditória,
Dois lados do mesmo espelho…

A mulher foi abençoada
Pelos ventos do saber e pelos
Tempestuosos sopros do sofrer.

A mulher também sofre sim,
Sofre por amor, por amor, por amor
E por saber o que sabe em si.

A mulher, a bela mulher, sempre
Fala o que sente e com todos os
Pontos de vista, até o masculino.

A mulher não é de silêncios
Gritará o magma térreo se necessário
E desalojará o improfícuo, se o desejar.

A mulher ama o poeta e o poeta ama
Todas as mulheres, todas elas belas mulheres
Mesmo aquelas que saltitam nas montanhas.

A mulher ama o poeta António.
O poeta dedicou-lhe um livro, belo livro.
Chora e ri, mulher mas não deixes de o ler.

A mulher é ternamente amada pelo poeta
António, o poeta António é amado por sua amada
Mulher, musa encantada que lhe
Brilha o coração.

A mulher, a mulher é cantada por quem sabe.
Deixei aos poetas o seu trabalho,
Cantem-nas, divinamente, cantem-nas!...

Dez. 09
(Editado pela Temas Originais. Poesia delicada e apaixonada. A ler.)

Para onde me levam os penedos da memória?

Para onde me levam os penedos da memória?
Sentado neles por tempos, que me trazem…
Estas histórias que desenrolo, irrompem da verdade
Ou trazem jardins labirínticos de encanto?
Não sei se o que recordo
É o que a memória quer
Ou as portas que a felicidade, essa mula, trancou.
Estamos presos a vidas que não vivemos,
Recordamos o sono em que tivemos despertos
E o amor que nunca caiu de raiz no nosso corpo?
Para onde me levas
Veredas sangrentas de carne
Ou escarpas luminosas encantatórias?
Para onde, para onde…
Dez. 09

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

O Silêncio: Lugar Habitado (Graça Pires)


Este livro não se arruma. Pomos a descansar na estante depois de o lermos e relermos mas habita-nos. Suavemente. Uma poesia de rara beleza.
A autora: Graça Pires.
Graça Maria da Costa Mendes Pires nasceu na Figueira da Foz, em 22 de Novembro de 1946. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Tem publicados os seguintes livros:

- "Poemas". Lisboa: Vega, 1990;
- "Outono: lugar frágil". Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993;
- "Ortografia do olhar". Lisboa: Éter, 1996;
- "Conjugar afectos". Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997;
- "Labirintos". Murça: Câmara Municipal, 1997;
- "Reino da lua". Lisboa: Escritor, 2002;
- "Uma certa forma de errância". Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003;
- "Quando as estevas entraram no poema". Sintra: Câmara Municipal, 2005;
- "Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos". Ed. Autor, 2007.
Prémios:

- Prémio Revelação de Poesia - 1990
- Prémio Nacional Poeta Ruy Belo – 2009 (é o 9º Prémio que recebe) Tive ocasião de escutar o livro na íntegra, por ocasião da entrega do prémio.

Um poema do livro:

“Em litorais longínquos
as mulheres deitam-se sobre a areia
junto à rebentação das ondas.
Com os braços em cruz
afastam as embarcações costeiras
e aguardam que a lua inteira
inicie um inesperado bailado
perto de suas bocas.
E não há âncora nem cais
que emudeça o júbilo dos mastros.”
Mais poemas da autora e poetisa, podem ser lidos no seu blogue: Ortografia do Olhar.
Que acham desta poesia?

Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

"The Poem I Didn’t Write" de Raymond Carver (1938-88)


"Here is the poem I was going to write
Earlier, but didn’t
Because I heard you stirring.
I was thinking again
About that first morning in Zurich.
How we woke up before sunrise.
Disoriented for a minute. But going
Out onto the balcony that looked down
Over the river, and the old of this city.
And simply standing there, speechless.
Nude. Watching the sky lighten.
So thilled and happy. As if
We’d been put there
Just at that moment."

Tirado da colectãnea: “All of Us, The Collected Poems”, de 1996.
É bem patente o seu minimalismo e noutros poemas a sua constante melancolia. Uma suave tristeza citadina e de subúrbio americano, que não têm nada a ver com o nosso.
Aconselho a edição bílingue em espanhol e inglés desta colectânea: Todos Nosotros, com prefácio daquela que foi a sua mulher e poetisa, Tess Gallagher.

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

com licença venho já

vou aonde quis ficar
vou aonde não pude
vou e estalajarei por lá
vou e logo descubro
vou e apenas farei a viagem
para lá de cá
vou e logo se verá
com licença, agora parto
vou para onde
devo ficar
acariciando os teus ombros
mexendo nos teus segredos
e o rio ali a brilhar
de olho piscado à lua
vou e logo verei se vou
novamente
para aqui ficar.

dez.09

Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Anjo de dedo em riste

Raramente falo de ti,
Ó anjo…
Não é tarefa ligeira
Seres o anjo
De dedo em riste
Que expulsa o desordeiro desalinhado
Do jardim do paraíso…
Um pouco do teu coração
Vai com o expulso.
A dor da expulsão
Faz-te querer ir com ele
O pecador…
Mas és um servidor
Dum Deus que amas
E que ama quem condena
Mesmo que os expulse…

(A John Milton 1608-1674)

Dez. 09