Luís tem a minha idade,
é um pesquisador de inutilidades,
caixote a caixote, já lhe disse que
nos caixotes da firma onde trabalho
nada se aproveita. Luís agradece.
Costumo dar pão que tenha
comprado e algum dinheiro. Trata-me
bem e trato-o bem. Conversamos. Falou-me
da sua esquizofrenia e de como parece
que pede para a droga. Contou-me que a
mãe trabalhava para uma senhora
que não fazia os descontos e que
deixou de precisar dela e agora está
doente e sem rendimentos a não ser
o pouco que o Estado dá e mal dá para
medicamentos. Nunca lhe disse que
acreditava no que me contava. Para mim
basta os olhos de quem fala. Disse-lhe
que onde cresci já vi centenas de olhos
de quem consome infernos, conheço-os
a todos. Luis tenta ser sincero e sempre
me cumprimenta. Pede-me desculpa e diz
que vai rezar por mim. Já não tem à
vontade para pedir. Há dias pediu-me
roupa e diz que por ali as pessoas deitam
fora tudo. Telemóveis a funcionar, brinquedos,
e uma continuidade de objectos ridículos.
Eu arranjo-te roupa, tens a minha altura,
só és mais magro. Fazem semanas que simplesmente
falamos e não me pede dinheiro. Um
vagabundo bem educado, posso afirmar?
Gosto do Luis. Trato-o como gente. Ele é
gente. Há muita gente assim. Gente que são
enxotados como canídeos sarnentos. Tenha
paciência, cão sarnento, chou, chou… e se
falássemos com eles, que doença nos
pegarão? Conhecem a história daquele rapaz
de 38 anos que vive nas ruas de Tomar com
uma pensão de invalidez de duzentos euros?
Aleijou-se na construção civil e agora não
trabalha.
Saiu num jornal regional, já lhe ofereceram
um quarto, dormiu lá uma noite, prefere as
ruas e as estrelas por cima de si, solidárias
e sempre sorridentes. Ninguém tem uma
queixa e todos os estimam, nunca fez nada
de ilegal. A guarda republicana aceitou-o
como ele é. Que fazer a este caso? Noutros
tempos e noutras culturas teria um papel
provavelmente espiritual mas hoje o homem
de barba e não demente que vive na rua
é invisível. Atravessa a rua e já não o vemos.
As crianças deixam de perguntar: Quem é
aquele homem que sorriu e disse adeus, está
tão sujo? Não é ninguém, respondemos, não
é ninguém… Na firma onde trabalho,
admiram-se de saber o nome do Luis.
Mas aquele homem magro como se
pertencesse a um grupo de sexagenários
famosos que ainda tocam rock n’roll
chama-se: Luis. É o nome dele.
(Maio 10)
2 comentários:
Saber ver no olhar dos outros a crueldade da vida e ter a lucidez de por isso tudo num poema. Obrigada.
Um beijo
É um estar atento à vida, do outro lado dela, e não virar costas ao ser-se bom ouvinte e, com isso, emprestar um sorriso e partilhar o pão...
Um beijo
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